Por Heitor Augusto, curador e programador. Cofundador do Nicho 54

E não é que 2020 está quase no fim?

Em julho, quando estávamos no dia sabe-se-lá-qual-pois-são-meses-de-isolamento, publiquei uma reflexão no projeto “Escrevivendo na Pandemia” à convite do Centro Cultural São Paulo (CCSP). Por meio dela pude dividir alguns temores sobre o ofício de curadoria e programação de filmes para o ambiente virtual, no qual inexiste a possibilidade do contato humano entre filmes, programador e espectadores(as). Corta para: já estamos em novembro e realizando o Nicho Novembro 2, evento que tem se mostrado central na vida do instituto Nicho 54.

Se em 2019 decidimos celebrar as narrativas heroicas e afetivas pretas, entrelaçando curtas, médias e longas-metragens de diferentes eras e que ocupam lugares distintos numa certa história do cinema, neste ano estamos reunidos sob o mote “O Cinema como Trabalho”. Convidamos o público a acompanhar não apenas a mostra de filmes, mas também a programação de debates e atividades de formação para entender por que decidimos, numa pandemia que empobrece e vulnerabiliza a fatia racializada da população brasileira, falar sobre trabalho numa atividade tão comumente percebida como criação divorciada do lavor.

Sentimos já ser possível apontar com alguma tranquilidade traços de uma identidade do nosso evento, ainda que estejamos apenas na segunda edição. O Nicho Novembro é um espaço físico-simbólico que combina formação do olhar (mostra de filmes), compartilhamento de conhecimento e experiências (atividades de formação) e intervenção no mercado audiovisual (painéis de discussão). Gostamos de pensá-lo a partir de gestos propositivos que plantam contribuições na construção de trilhas, encruzilhadas, esquinas, travessas e rotas.

No que se refere especialmente à sua dimensão de festival de filmes, o Nicho Novembro aposta na pesquisa curatorial, de forma a convidar o público a ampliar seu repertório visual; acredita que a comunicação entre filmes pode transformar o festival numa experiência que vá além de “mostrar os melhores filmes da safra anual”; deposita especial atenção na seleção e programação dos filmes de curtas-metragens, formato que tanto tem oferecido para a inventividade preta brasileira e alhures; convida à conversa e às tensões entre as narrativas daqui, da diáspora e do continente africano.

Vamos falar dos filmes?

O Nicho Novembro 2 exibe 4 longas e 12 curtas-metragens, sendo 8 premières brasileiras. Histórias oriundas do Brasil, Quênia, Estados Unidos, Angola, Ruanda e França. Espalhados ao longo de uma semana, os filmes estreiam sempre às 19h e ficam disponíveis por 42 horas – clique na página Como Assistir para entender o funcionamento da plataforma e também a janela de exibição.

Os filmes do Nicho Novembro 2 levarão o público a viajar por diferentes territórios, subjetividades, predileções estéticas, temas e intenções. Aos que chegaram até aqui, permitam-me levá-los num voo panorâmico pela programação:

A jornada começa com Por toda a noite (BlackStar Festival), documentário da afro-latinx Loira Limbal que nos coloca em contato com uma realidade nova yorkina tão familiar aos brasileiros, particularmente às mulheres: o fenômeno das creches noturnas. O olhar atencioso de Limbal nos incita a refletir sobre os entroncamentos entre gênero, a responsabilidade do cuidado, classe, raça e nacionalidade.

Do documentário-verdade migramos para o primeiro programa de curtas. Intitulado “Nós e os nossos”, ele é dedicado a filmes sobre jornadas individuais e familiares de personagens pretos. Genius Loci (Berlinale), animação do francês Adrien Mérigeau, aguça os sentidos e nos faz mergulhar no mundo de Reine. De repente, a escuridão (TIFF), estreia de Tayler Montague na direção, é um terno filme de memórias registradas por uma menina a relembrar do passado recente. O tecido familiar (ou seus eventuais buracos) também é amplamente explorado pelos outros três curtas do programa: Receita de Caranguejo (Festival de Gramado), de Issis Valenzuela, que convida o fantástico; Aquário (Festival de Locarno), de Ngabo wa Ganza, que aposta nos silêncios; e Colunas (Sundance) de Haley Elizabeth Anderson, que faz da cadência e da fotografia suas grandes armas cinematográficas.

A investigação formal e a aposta em interpretações nuançadas da(s) ancestralidade(s) negra(s) brasileira estão no centro do longa-metragem Cavalo (Mostra de Tiradentes) que dá sequência à programação. Posicionado a partir de Alagoas, os diretores Rafhael Barbosa e Werner Salles Bagetti constroem, juntamente com sete dançarinos, uma experiência visual, sonora e territorial que toma a expressão corpórea como potência.

Em seguida voltamos à programação de curtas. “A cor do trabalho” reúne filmes que dialogam com o tema do Nicho Novembro 2 e nos convidam a pensar o lugar do trabalho para as populações negras. O trabalho em cinema, particularmente o da atuação, é investigado nos curtas que abrem e fecham o programa: Num país chamado Hollywood (American Black Film Festival), de Jessica Sherif, convida o universo de Alice no país das maravilhas para construir uma metáfora do racismo estrutural que atrizes negras enfrentam (em particular as de pele escura); na outra ponta, Tudo que é apertado rasga (Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul) recupera radicalidade do filme de montagem para operar justiças contra as violências sofridas por atrizes e atores negros e negras do audiovisual brasileiro.

O percurso desse programa de curtas passa também por A última gota de óleo (BlackStar), potente registro crítico em primeira pessoa de Bilal Motley, cineasta e trabalhador da mais antiga refinaria na Filadélfia; por Ruim é ter que trabalhar (Curta Kinoforum), mais uma parceria entre o realizador Lincoln Péricles e o ator Adriano Araújo, cuja fotografia em preto e branco convida a um tempo reflexivo e à investigação do mundo interior de um operário; e por Dízimos e oferendas (Clermont Ferrand), do queniano Tony Koros, que utiliza a comédia para narrar as peripécias de um pastor fajuto.

Continuando no continente africano, é com orgulho que realizamos a Sessão Geração 80, dedicada a duas obras da produtora angolana que neste ano completa uma década de atuação. Contrapondo-se à expectativa pelo realismo, o curta Lúcia no céu com semáforos (Clermont Ferrand), de Ery Claver e Greta Marín, e o longa de ficção Ar Condicionado (Festival de Roterdã), de Fradique, realizam uma cuidadosa construção de atmosfera. Em Ar Condicionado tomamos contato com uma Luanda mítica, onírica até, e que acumula temporalidades. Já em Lúcia no céu com semáforos, silêncios e ruídos montam um mosaico de um corpo-alma de mulher que desafia uma estrutura social sufocante.

O último longa da programação do Nicho Novembro 2 reposiciona a obra de Dorival Caymmi. Dorivando saravá, o preto que virou mar (In-Edit), do prolífico documentarista Henrique Dantas, recusa-se à museificação do compositor baiano e devolve à sua obra uma perspectiva negra, posicionando em primeiro plano a racialidade em Caymmi.

Por fim, o nosso filme de encerramento é um convite para que apreciemos a riqueza das formas negras de criação. Mergulhado no afrofuturismo e comprometido com a discussão política de reparação histórica aos afrodescendentes, Deusa toda poderosa (BlackStar), de Chelsea Odufu, fabula a hipotética situação: descobriu-se que Deus é, na verdade, uma mulher negra e chegou o momento em que pessoas brancas têm de pagar a dívida histórica com a população preta – africana e da diáspora.

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Uma porção significativa do meu trabalho – dentro e fora do Nicho 54 – é contribuir para que o ato de ver, sentir e refletir sobre imagens seja democratizado junto à população preta. Ano passado, quando demos nosso primeiro passo no Café Jardin do Centro, o delicioso espaço erigido por Jean Manuel e Ina Amorozo e que hoje se tornou o Jardin Velharia, sinto que conseguimos transformar aquela pequenina sala num espaço de pertencimento.

Em 2020 não podemos estar juntos para conversarmos sobre os filmes até o cinema fechar. Por outro lado, a migração para o ambiente virtual permite que cheguemos a territórios fora da cidade de São Paulo. Assim, convido vocês a se engajarem na programação do Nicho Novembro. A conversa segue virtualmente pelas redes do Nicho 54 (@nicho54br no Instagram e @nicho54brasil no Facebook) ou nas minhas (@ursodelata no Twitter e Instagram).

Um festival não se faz sem a participação e interação entre pessoas. Que continuemos essa conversa por lá.

Tenham um ótimo festival!

[créditos]

Concepção: Fernanda Lomba, Heitor Augusto, Raul Perez (Nicho 54)
Curadoria – Mostra de Filmes: Heitor Augusto
Produção executiva: Fernanda Lomba
Coordenação de programação: Karen Almeida
Coordenação de comunicação: Mariana John
Identidade visual e design: Lucas de Brito
Tradução e legendagem (filmes): Bruna Barros, Heitor Augusto, Juan Rodrigues
Tradução simultânea (painéis): Henrique Cotrim, Pedro Ribeiro Nogueira
Suporte técnico | Lives: Marian Nunes
Estrutura de transmissão de Lives: Compasso Coolab

A plataforma de streaming do Nicho Novembro 2020 – Mostra de Filmes foi construída pela QUANTA, à qual o Nicho 54 vivamente pela parceria.

Direção de tecnologia: Hugo Gurgel, Diogo Costa Pinto, Tieres Tavares
Desenvolvimento do site: Mandelbrot
Programação: Andrei Thomaz, Marcos Marcelo, Vitor Andrioli
Revisão: Maíra Corrêa Machado

[agradecimentos]

A curadoria agradece a todos os diretores e diretoras, produtores e produtoras e também às distribuidoras que confiaram seus filmes aos nossos cuidados.

Amma Pisquê; Hebe Tabachnik; Janaína Oliveira/Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul: Brasil, África, Caribe e Outras Diásporas; Raquel Zorzi (Compasso Coolab); Tamires Souza (Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Curta Kinoforum); Zita Carvalhosa (Festival Internacional de Curtas de São Paulo – Curta Kinoforum)